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Endividamento das famílias bate recorde em 2026 e entra no radar da campanha eleitoral

O endividamento das famílias brasileiras bateu novo recorde histórico em 2026. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o percentual de famílias com algum tipo de dívida saiu de 79,5% em janeiro e chegou a 81,6% em junho — o maior nível da série histórica, iniciada em 2010. A parcela média da renda mensal comprometida com dívidas também subiu, atingindo 29,7% em janeiro.

Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC)
Imagem: Divulgação/Portal do Comércio (CNC)

O que está por trás do recorde de endividamento

Segundo a própria CNC, o avanço do endividamento em 2026 é puxado por uma combinação de fatores: a taxa de juros elevada (Selic em 14% ao ano), o crescimento do uso do crédito rotativo — a modalidade mais cara do mercado, com taxas que podem superar 400% ao ano no cartão de crédito —, a pressão do custo de vida sobre o orçamento das famílias e, mais recentemente, o avanço das apostas online (“bets”) sobre o orçamento doméstico, um fator que passou a ser monitorado com atenção crescente por economistas e institutos de pesquisa do consumo.

O dado chama atenção justamente por acontecer num momento em que o governo defende que a economia vai bem, com inflação sob controle e desemprego em nível historicamente baixo. Os números do endividamento mostram que essa leitura não é unânime: parte considerável da população segue pressionada financeiramente, mesmo com indicadores macroeconômicos favoráveis.

80,4% das famílias com alguma dívida, segundo CNC/PEIC
Imagem: Divulgação/Agência Senado

O debate político em torno do número

Em ano eleitoral, o recorde de endividamento virou munição no debate político. O senador Carlos Jordy (PL-RJ), pré-candidato à reeleição, publicou em suas redes sociais que “Lula conseguiu endividar 82% das famílias brasileiras”, atribuindo o resultado à “incompetência e irresponsabilidade fiscal” do governo federal. O número citado por Jordy é próximo do registrado pela série mais recente da PEIC (81,6% em junho), ainda que a pesquisa não atribua o resultado a um único fator ou responsável — o próprio levantamento da CNC cita juros altos, crédito rotativo, custo de vida e apostas online como causas conjuntas, não como consequência isolada de uma política de governo específica.

É esperado que declarações de pré-candidatos usem dados econômicos reais pra reforçar narrativas de campanha — isso vale tanto pra quem ataca o governo atual quanto pra quem o defende. Do ponto de vista puramente técnico, o dado da PEIC é real e verificável; a interpretação de causa política por trás dele é discurso, não fato apurado pela pesquisa.

O que isso significa pro orçamento das famílias

Independentemente da leitura política, o dado prático é claro: mais de 4 em cada 5 famílias brasileiras estão com alguma dívida em 2026, e quase 30% da renda mensal já está comprometida com pagamentos antes mesmo de cobrir despesas básicas do mês. Isso reduz a margem de manobra financeira das famílias diante de qualquer imprevisto — de uma conta médica inesperada a uma simples alta de preço nos alimentos — e ajuda a explicar por que a percepção de “aperto no bolso” segue tão presente no dia a dia, mesmo em meio a indicadores macroeconômicos que, isoladamente, soam mais positivos.

Especialistas em finanças pessoais recomendam, nesse cenário, priorizar a renegociação de dívidas mais caras (como o rotativo do cartão) antes de qualquer novo crédito, e reforçam que o crescimento do endividamento ligado a apostas online merece atenção redobrada das famílias — é uma modalidade de gasto que, diferente de financiamento de bens ou serviços, não gera nenhum ativo ou benefício em troca do dinheiro comprometido.

Onde o aperto no orçamento mais aparece no dia a dia

O impacto desse recorde de endividamento não fica só nos números da pesquisa — ele aparece em decisões concretas que os brasileiros tomam toda semana. No mercado automotivo, por exemplo, os juros do financiamento de veículo já giram em torno de 25,8% ao ano — bem acima da Selic — mesmo assim o volume de financiamentos bateu o melhor patamar desde 2008, sinal de que o crédito segue sendo praticamente a única porta de entrada pro carro próprio pra quem não tem o valor à vista.

Na mesa do brasileiro, o aperto também aparece: a carne bovina acumula alta de 26% em 2026, puxada pelo aumento das exportações pra China, o que reduziu a oferta no mercado interno e encareceu até os cortes mais populares. E na conta da saúde — que já é o quarto maior item do orçamento familiar — o reajuste dos planos de saúde individuais e familiares em 2026 ficou em 5,11%, segundo teto definido pela ANS — abaixo do ano anterior, mas ainda uma despesa fixa que pesa sobre um orçamento já pressionado por outros lados.

São três exemplos concretos e bem diferentes entre si — carro, comida, saúde — mas que têm a mesma raiz: um cenário de juros altos e renda pressionada em que qualquer gasto fixo adicional se torna mais difícil de absorver, reforçando por que o recorde de endividamento da PEIC não é só um número abstrato, mas o retrato de um aperto que a maioria das famílias brasileiras sente na prática.

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