Portal editorial independente sobre economia, mercado e política econômica. Este site não possui vínculo oficial com o economista Paulo Guedes. Saiba mais

Nova fase da Carbono Oculto mira fintechs da Faria Lima e reacende disputa entre Lula e Tarcísio de olho em 2026

Avenida Faria Lima em Sao Paulo, alvo da nova fase da Operacao Carbono Oculto
Foto: Reproducao/CNN Brasil

Uma nova fase da Operação Carbono Oculto, batizada de Operação Fluxo Oculto, colocou novamente as fintechs da Avenida Faria Lima, em São Paulo, no centro de uma investigação sobre lavagem de dinheiro ligada ao crime organizado. Deflagrada em 28 de maio de 2026 pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), por meio do seu Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), em conjunto com a Receita Federal, a operação cumpriu 59 mandados de busca e apreensão em cinco estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso do Sul, segundo reportagem da CNN Brasil.

O caso é um desdobramento direto da Operação Carbono Oculto original, deflagrada em agosto do ano anterior, que revelou um esquema bilionário de fraude no mercado de combustíveis e apontou a movimentação de recursos de origem ilícita para fundos de investimento geridos por instituições financeiras sediadas na Faria Lima, considerada o principal polo do mercado financeiro brasileiro.

Seis fintechs e R$ 26 bilhões movimentados

De acordo com a CNN Brasil, a nova fase identificou seis instituições de pagamento que teriam passado a operar como bancos paralelos do crime organizado depois que as fintechs usadas anteriormente foram bloqueadas ou tiveram a liquidação decretada em consequência da primeira fase da Carbono Oculto. Entre 2022 e 2025, essas instituições teriam movimentado mais de R$ 26 bilhões, com uma delas recebendo, sozinha, depósitos em espécie superiores a R$ 1 bilhão.

A investigação também mapeou um esquema de adulteração de combustíveis: empresas de fachada compravam nafta, um solvente industrial, e a desviavam para terminais de armazenamento, onde era misturada à gasolina revendida em postos controlados pela organização. Segundo a apuração, essa fraude teria gerado uma sonegação fiscal estimada em R$ 200 milhões ao longo de dois anos.

Além disso, quatro fundos de investimento sob suspeita somam cerca de R$ 205 milhões em ativos, com crescimento patrimonial superior a 200% em pouco mais de um ano — um salto que, segundo investigadores, é incompatível com a atividade declarada dessas estruturas e reforça a hipótese de que estariam sendo usadas para dar aparência de legalidade a recursos de origem criminosa.

A fase original da Carbono Oculto, relembre-se, havia identificado que o PCC mantinha cerca de R$ 30 bilhões aplicados em 40 fundos geridos por fintechs na Faria Lima — um volume que, à época, escancarou a sofisticação financeira alcançada pela facção e a capacidade de infiltração em estruturas reguladas do mercado de capitais brasileiro.

Faria Lima como símbolo e a disputa Lula x Tarcísio em 2026

Para além do aspecto criminal, a nova fase da operação ganhou contornos políticos relevantes a poucos meses da corrida eleitoral de 2026. A Faria Lima é o endereço simbólico do mercado financeiro e corporativo brasileiro, e mirar fundos e fintechs sediados ali produz um efeito de comunicação que vai além do valor das autuações. A publicidade dada à operação pelo governo federal ocorreu, segundo relatos, no mesmo momento em que o secretário de Segurança Pública do governo de São Paulo participava de uma coletiva de imprensa sobre o tema — uma coincidência de agenda que alimentou a leitura de que o caso também é disputado no terreno político.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), desponta como o principal opositor ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa presidencial de 2026, e o fato de a operação atingir diretamente o coração financeiro do estado que ele administra tem sido lido por analistas políticos como um episódio com potencial de desgaste para o campo governista paulista, ao mesmo tempo em que fortalece a narrativa do governo federal de combate ao crime organizado infiltrado no sistema financeiro.

Do ponto de vista regulatório, o caso reacende o debate sobre a fiscalização de fintechs e instituições de pagamento por parte do Banco Central. O crescimento acelerado desse setor nos últimos anos, somado a barreiras de entrada mais baixas do que as exigidas de bancos tradicionais, tem sido apontado por especialistas em compliance como uma vulnerabilidade explorada por organizações criminosas para dar liquidez e aparência legal a recursos ilícitos. A expectativa do mercado financeiro é de que a repercussão da Operação Fluxo Oculto pressione por um endurecimento das regras de monitoramento de transações e de abertura de contas por parte dessas instituições, num momento em que o setor de pagamentos digitais segue crescendo em participação dentro do sistema financeiro nacional.

A investigação segue em andamento, e novos desdobramentos — tanto na esfera penal quanto na repercussão política — são esperados nas próximas semanas, à medida que o tema ganha espaço no debate público a caminho de 2026.

Rolar para cima